A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil

Lançada em 2001, a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, da Fundação Pró-Livro, é o mais completo painel sobre os hábitos de leitura da população brasileira. A divulgação dos números, coletados pelo IBOPE Inteligência em 2011, dá mostras do cenário nada favorável que o país precisa enfrentar para vencer barreiras há muito arraigadas. Os entrevistadores classificam como leitores aqueles que leram ao menos um livro nos três meses anteriores à coleta dos dados. Há nesse recorte uma queda de 9,1% comparando-se os números de 2011 com os de 2007, de 95,6 milhões para 88,2 milhões de leitores, que correspondem a 50% da população brasileira com cinco anos ou mais – 178 milhões. E em relação às obras lidas a curva também é decrescente – de 2,4 em 2007 para 1, 8 livros lidos em 2011.

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil II

A substituição do tempo destinado à leitura por diversos outros hábitos, como televisão, assistir a filmes em DVD e navegar em computadores por diversão ajuda a explicar os números coligidos. Ao mesmo tempo, o desinteresse da população está bastante presente na pesquisa, como bem atesta a baixa penetração das bibliotecas na disseminação do hábito de ler. Três em cada quatro brasileiros nunca pôs os pés numa biblioteca, mesmo que em quase sua totalidade admitam ter fácil acesso a equipamentos culturais do gênero. O que de certa forma ajuda a corroborar outro dado, o que identifica os que têm o hábito de ler em seu tempo livre. Comparando-se os números de 2011 com os de 2007, a queda é de 8% – apenas 24% dos entrevistados afirmam dedicar-se a leitura como forma de lazer.

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil III

Surpreende também o recorte regional. A região Sul, que historicamente apresenta estatísticas educacionais superiores a média nacional, é a que possui a menor porcentagem de leitores em relação ao total da população – apenas 43%. Por outro, o Centro-Oeste e o Nordeste são as únicas regiões que superam a média, com 53% e 51%, respectivamente. Em relação a faixas etárias, há um declínio na média de livros lidos dos 5 aos 17 anos comparando-se 2011 a 2007. Segundo o IBOPE dois fatores ajudam a explicar os números – o aumento da expectativa de vida e a redução de brasileiros em idade escolar. O que, por outro lado, reforça a dificuldade de termos no país uma massa de leitores independentes ao ambiente acadêmico – apenas 21% dos entrevistados lê livros diariamente.

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil IV

Os números coletados tornam oportunas as reflexões que rompam com antigas ideias sobre a questão da leitura no país. Mais do que uma questão de acesso (físico ou econômico), estamos diante de uma questão de hábitos, que antes mesmo de desenvolvidos vêm sendo substituídos por novas formas de lazer. O valiosíssimo banco de horas livres dos brasileiros tem sido utilizado pela maior parte da população em atividades apartadas da leitura. Como convencer esse leitor em potencial não só da importância, mas principalmente do prazer que os livros podem nos proporcionar, talvez seja um dos mais complexos projetos do país para os próximos anos.

José Godoy é escritor e editor. Mestre em teoria literária pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), colabora com diversos veículos, como a revista “Legado”, da qual é colunista, e os jornais “Valor Econômico” e “O Globo”. Desde 2006, apresenta o programa “Fim de Expediente”, junto com Dan Stulbach e Luiz Gustavo Medina. O blog do programa está no portal G1.

Um comentário

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