Os Cavalos da República

“Era Deodoro presidente da República quando o convidaram para visitar o atelier de Rodolpho Bernadelli, no qual se achava, quasi acabado, o quadro representando a proclamação da República.

O velho soldado parou diante da tela, na qual sua figura varonil apparecia montando um ginete ardego, examinando-a attento.

De repente, voltou-se para os que o acompanhavam:

– Vejam os senhores! – disse.

E indicando o quadro:

– Quem lucrou no meio de tudo aquilo foi o cavallo!…”

(Humberto Campos, “A pata do cavallo”, Brasil Anedoctico, Rio de Janeiro, Ed. Leite Ribeiro, 1927.)

Assim começa o livrinho do Moacyr Scliar, citando esse trecho do Brasil Anedoctico. Lançado pela FTD em 1989 e que eu devo ter lido pela primeira vez em 1991, 92 por ai. Ontem o achei jogado na estante do meu irmão e ao folheá-lo, acabei relendo o danado e até gostei mais de relembrar a história, classificada como infanto-juvenil, do que quando li na “idade recomendada”.

Na verdade, o interessante do livrinho são as descrições do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro de 1889 e parte da História do Brasil da época, abolição da escravatura e proclamação da República.

Rafael, o bisavô que relata sua história no caderno deixado de presente aos seus descendentes, deixa o interior do Rio Grande do Sul e vai, ainda bem jovem, morar com o pai – um capitão do Exército brasileiro – no Rio de Janeiro, poucos meses antes da proclamação da República, no distante ano de 1889.

No Rio, Rafael vai até o quartel onde o pai servia; lá conhece os cavalos que atendem os militares, inclusive um que era montado pelo marechal Deodoro da Fonseca. “Era um bicho vaidoso, que ignorava ostensivamente seus companheiros de cavalariça”, garante o rapaz.

A exemplo dos muitos militares daquele fim de século XIX – insatisfeitos com o governo imperial de Pedro II -, alguns cavalos agiam, pode-se dizer, como insurgentes, ajudando a inflamar os ares dos quartéis com “discursos subversivos”.

Claro que somente Rafael podia ouvi-los, o que o fazia duvidar até da própria sanidade. Chegava então a hora de os fatos históricos entrarem em movimento. No Campo da Aclamação, em 15 de novembro de 1889, os militares dão fim ao império brasileiro, e o cavalo do líder marechal Deodoro toma as rédeas do destino histórico, além de oferecer a Rafael uma desavergonhada piscadela, jamais esquecida por ele e seus descendentes.

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