Ser marinheiro é bom, mas não era pra mim

Ontem voltando do centro de Maceió em direção à Pajuçara, onde fiquei a trabalho por uns dias, peguei um táxi e o taxista como sempre foi puxando papo e contando história. Compartilho agora:

Não sei como entramos no assunto mas ele começou a falar da vida do seu cunhado, que segundo informou era um sujeito simples do interior de Alagoas e que para orgulho do pai serviu a marinha e virou marinheiro. Porém, aquilo não era o que ele queria, queria mesmo ser engenheiro naval, na época a universidade mais próxima com o curso escolhido ficava no Rio de Janeiro, certa vez contou o sonho ao pai, que era caminhoneiro, e este explodiu de raiva só de pensar na idéia do filho largar a Marinha para estudar: “Quem estuda em faculdade é quem tem pai rico e não tem profissão. Você já tem profissão e eu sou pobre. Tá doido? Vai deixar de ser marinheiro? Ôxe!” Disse o velho, que segundo o taxista é bruto que só burro.

O tempo passou, mas a idéia de estudar não, então na primeira oportunidade passando pelo Rio de Janeiro de navio, prestou vestibular e passou para o tão sonhado curso. Ao retornar para casa mostrou com orgulho o resultado e disse que precisaria do apoio da família, o pai novamente teve um acesso de fúria e disse: “Do meu bolso não sai um tostão pra sustentar vagabundo no Rio de Janeiro!” A mãe era dona de casa e não tinha renda, já a irmã trabalhava no comércio e tinha acabado de casar com um taxista, não tinham condições financeiras estáveis, mas o taxista que gostava muito do cunhado, ao qual chama de paraíba véi do interior, resolveu apoiar o sonho do rapaz e disse que se fosse, ele mandaria um trocado todo mês. Pronto, era o que ele queria ouvir, deixou a marinha e se mandou para o Rio de Janeiro.

Na cidade maravilhosa, passou muito aperto e até fome, morou em cubículo, dividiu quarto, mas logo arrumou uma fonte de renda extra além dos trocados, dava aula de física e química a noite aos colegas do seu e de outros cursos. Formou-se em tempo recorde, antes mesmo de terminar já foi chamado pra prestar serviços à Marinha do Brasil, disse não, foi então convidado por uma multinacional para trabalhar com estratégia, manutenção e logística, mas tinha que falar inglês e espanhol, sabia inglês mal, só leitura, mas aceitou o desafio da empresa que lhe deu prazo de dois meses para se adaptar aos idiomas, obstinado como sempre em dois meses missão cumprida, já se virava muito bem com o público nas duas línguas, assinou contrato, em um ano foi alçado ao cargo de presidente de logística da empresa, comanda ações aqui e no exterior, vive viajando diversos países.

Agora a parte que mais gostei da história, com as palavras do Taxista: “Assim que ele assinou contrato com a empresa, o primeiro contrato antes mesmo de ser presidente, ele ligou pra mim pra dar a notícia e disse mesmo assim: João consegui o que eu queria, assinei contrato com a empresa. João, bote Junior pá estudar no melhor colégio de Alagoas. Eu fiquei com medo, disse a ele, rapaz se tu perder esse emprego eu não vou ter como sustentar o meu filho em escola cara não. Aí ele me disse: João, bote júnior no melhor colégio e mande ele estudar que daqui pra frente eu não vou mais ficar sem dinheiro e de hoje em diante quem paga os gastos com os estudos dele até a faculdade sou eu é a melhor maneira que eu tenho de lhe recompensar, aí eu botei, né”

Segundo o taxista, seu cunhado com um ano de trabalho deu uma casa pro pai e disse: “Ser marinheiro é bom, mas não era pra mim”. Esses dias ele estava no Brasil e passou lá por Maceió pra visitá-lo, antes de viajar pra Dinamarca onde ia para um evento do setor em que a empresa trabalha. Novamente frases do taxista: “Menino precia ver o paraíba véi comedor de charque estragado, todo de computadorzim desses que parece um livro, cheiroso, bebendo vinho, falando inglês e tudo mais. Ele casou com uma mulher lá da zóropa ainda hoje a bicha é toda bonitona. Meu filho vai fazer o vestibular no ano que vem, o menino é esforçado, puxou o tio, desde aquela época nunca gastei um tostão com os estudos dele. Nenhum!”

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